Quem somos, alem dos filtros?



Nossa reflexão tem como ponto de partida o texto de Romanos 12.3. 

Gostaria de iniciar essa reflexão, com uma história que li recentemente e que potencializou meu desejo de pensar acerca da nossa reflexão nesse dia. Trata-se de uma história do mestre Akiva, um rabi que viveu por volta de 40-135 d.C. A história conta que: 


“Numa noite ele retornava para casa, na vila onde morava. Era tarde da noite e na estrada havia muita nebulosidade. Ele se deparou com uma bifurcação, acabou se perdendo e, de repente, encontrou uma enorme fortaleza romana. Do alto da muralha, um soldado romano grita: “Quem é você e o que está fazendo aqui?” Akiva responde: “O que você disse?”. O soldado grita outra vez a mesma pergunta: “Quem é você e o que está fazendo aqui?”. Akiva, ainda espantado com a pergunta, responde dizendo: “Quanto eles estão te pagando?”. O soldado, sem entender muito, replica com um “como é?”. Akiva repete a mesma questão, no que o soldado responde: “Dez denários por semana”. Akiva então diz: “Eu te pago o dobro desse valor para ir até minha casa todas as manhãs e me fazer essas duas perguntas”. 


“Quem é você e o que está fazendo aqui?” Quantas foram as vezes que estas questões passaram em nossa mente e nestas muitas ocasiões optamos por não dar continuidade a este exercício de refletir, por entender que isto demandaria muita energia e provavelmente não chegarmos a lugar ou reposta nenhuma. De fato, são questões difíceis e não tenho a intenção e provavelmente não teria capacidade de dar alguma resposta conclusiva. Mas gostaria de propor esta reflexão, uma vez que percebemos, em nossos dias, uma pressão incessante por automatizarmos e evidenciarmos perfectibilidade em nossa vida, em nossas relações, em nossas práticas, em nossos discursos e tantas outras coisas. 


Neste trecho da carta, escrita para a igreja em Roma, percebemos o Apostolo Paulo, encorajando a igreja a não desistir, a cumprir o chamado que cada um recebeu, a cumprir o evangelho cuidando dos que comungam da mesma fé e daqueles que ele descreve como nossos inimigos. Mas no verso 3, vemos que dá um conselho aquela igreja dizendo: “não se considerem melhores do que realmente são. Antes, sejam honestos em sua autoavaliação, medindo-se de acordo com a fé que Deus nos deu.” Perceba o apostolo convidando aquela comunidade a identificar quem são e o que estão fazendo ali e talvez esse conselho foi dado, porque alguns daqueles irmãos e irmãs, estavam perdendo sua identidade e com isso esquecendo-se de quem eram e o que estavam fazendo ali. Talvez alguns estivessem assumindo uma postura de superioridade em relação aos demais e com isso, esquecendo-se de cumprir seu papel. Talvez alguns estivessem transmitindo uma perfectibilidade e com isso não poderiam misturar-se, não poderiam dialogar, não poderiam conviver com outras pessoas (dentro ou fora do círculo cristão). Talvez alguns estivessem perdendo o foco de cuidar do próximo, por estar tentando otimizar os recursos de sua vida. Enfim, Paulo convidou aqueles irmãos e aquelas irmãs, a refletirem quem eles eram e o que estavam fazendo ali. 


Nesse dia eu e você, somos convidados a buscarmos entender quem somos e o que nós estamos fazendo aqui. Talvez essa questão demande tempo e aprofundamento em nossa reflexão, pois não é uma questão simples de responder. Inicialmente, como Paulo orientou, precisamos ser honestos com nossa autoavaliação. Somos influenciados por aquilo que está ao nosso entorno e em muitos casos, somos levados a viver e agir desta maneira. Queremos ter o que eles têm, viver como eles vivem, fazer o que eles fazem, comer o que eles comem, enfim, queremos ser e estar como eles e isso torna-se prejudicial, pois não agimos de acordo com quem somos, agimos de acordo com o contexto que estamos inseridos. Pervertemos nossas crenças, nossos valores, nossa ética, afim de ser alguém que não sou e viver o que de fato não gostaria. Deixamos de viver a essência do verdadeiro amor, deixamos de ajudar o próximo, independente de quem seja o próximo, achamos que somos superiores, consideramos que somos melhores e por consequência mais merecedores que os outros. Somos advertidos nesse dia a nos voltarmos para nós mesmos, para identificarmos nossas falhas e buscarmos em Deus uma mudança verdadeira de dentro para fora.  


Somos convidados nesse dia a refletir sobre quem somos e o que estamos fazendo aqui. Esta é a advertência que o apostolo faz a igreja e talvez não estejamos dando atenção. Mas gostaria de lembrá-lo e lembrá-la, que para que possamos cuidar do outro é necessário que estejamos cuidados. No verso 17, na tradução A Mensagem, a fala do apostolo nos encoraja a “descobrir a beleza que há em todos,” desde que tenhamos “encontrado em nós”. Reconheçamos nossas limitações, nossas imperfeições, nossos erros, nossos medos, nossas carências, ou seja, reconheçamos que somos humanos. Muitas vezes queremos ser como o Dr. Henry Jekyll, da história do Médico e o Monstro, querendo anular, a qualquer custo nosso lado obscuro, por não aceitar que somos maus. Ao que parece temos vergonha de reconhecer nossas limitações, erros, preconceitos, ira e tantas outras coisas. Mas quando observamos a bíblia, vemos que eles não tinham medo de reconhecer suas fraquezas. Veja o que o salmista diz no Salmos 32 e tambem no Salmos 73, onde lemos uma belíssima confissão de Asafe.


O próprio apostolo Paulo, não teve vergonha de reconhecer suas dificuldades e em Romanos 7.18-19, ele confessa: 


“E eu sei que em mim, isto é, em minha natureza humana, não há nada de bom, pois quero fazer o que é certo, mas não consigo. Quero fazer o bem, mas não o faço. Não quero fazer o que é errado, mas, ainda assim, o faço.” 


O escritor Thomas Merton, em um de seus pensamentos, observou que “enquanto acreditarmos que não odiamos ninguém e somos misericordiosos e naturalmente bondosos, estaremos enganando a nós mesmos”. Precisamos ser honestos com nossa autoavaliação e reconhecer nossas fraquezas, pois nesse reconhecimento a gloria de Deus se manifestará. Precisamos nos voltar para nós mesmos e reconhecer nossas imperfeições, nossos erros, nossas limitações, nossas ausências. Todos temos nossas incongruências. Isto é o que observamos em Eclesiastes 7.18-19.

 

O autor de Eclesiastes, reforça que todos, somos pecadores, todos fazemos o mal, ainda que esse não seja o nosso desejo. Novamente citando Thomas Merton, ele diz que: 

Todos estamos mais ou menos errados, estamos todos em falta, somos todos limitados e condicionados por nossos diversos motivos pessoais, nosso autoengano, nossa avareza, nosso farisaísmo e nossa tendencia a nossa agressividade de hipocrisia. 


Precisamos nos esforçar para aceitar a composição de quem somos e com isso evitarmos os extremos, como sugere Eclesiastes. Pedro, em sua caminhada com Jesus, viveu os extremos, até que ao cantar do galo, percebe sua realidade. Pedro, diante de todo aquele alvoroço, sabendo que seu mestre seria crucificado, sabendo que havia negado, ele tem um choque de realidade e reconhece sua fraqueza. Retorna a sua antiga vida e num dado dia, em um novo encontro com Jesus, recebe a incumbência de cuidar, alimentar e apascentar as ovelhas de Cristo. Não estou dizendo, que devemos viver a revelia, estou dizendo que precisamos saber quem somos, encontrar em nós a beleza do Pai e assim encontrar no outro a beleza de Cristo. A mudança é de dentro para fora.  


Reconheça erros e corrija-os, reconheça suas fraquezas e limitações e peça ajuda, reconheça seu pecado e peça perdão, reconheça sua ausência e torne-se presente, reconheça que está sofrendo e busque socorro, reconheça que está doendo e busque remédio. Isso fará muito bem para você e te aproximará ainda mais de Deus, como aconselhou o Salmista. Não tenha medo de confessar a Deus e alguém que você confia, que precisamos de ajuda.  


Quem somos e o que estamos fazendo aqui? Lembro que no filme Soul, da Pixar, o personagem Joe Gardner, um apaixonado por música e por seu instrumento, viveu sua vida, pensado que seu propósito era fazer música e tocar piano. Depois de conviver com a personagem 22 e vivenciar diversas experiencias, ele percebe que o propósito era muito maior, o propósito da vida era viver. Quando entendermos e reconhecermos nossas particularidades, poderemos viver a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Entenderemos que a vida que agora vivemos, vivemos pela fé no filho de Deus, que nos amou e se entregou por nós. Quando compreendermos que precisamos viver esta vida como uma dadiva diária, identificaremos que a “graça de Deus nos basta, porque o seu poder se aperfeiçoa em nossa fraqueza”. Viveremos por Ele, para Ele e com Ele. Que nossa oração seja esta, sonda-me oh Deus, mostra-me se há em mim algo que te ofende e conduze-me pelo caminho eterno. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ninhos vazios