Falando com (o) estranho

 


Nossa reflexão tem como base o texto de Lucas 24.13-35! Desejo que esta leitura ressignifique pontos importantes de nossa caminhada!

Lucas é um dos autores que trazem mais detalhes acerca da vida de Cristo e em muitos casos, relatos históricos constam apenas em seu livro, exemplo do relato que acabamos de ler. Como sabemos após a prisão, julgamento, sentença e morte de Cristo, muitos dos discípulos e outras pessoas que acompanhavam o Senhor, se dispersaram, dada a perseguição que começava a se instalar contra os seguidores do Cristo. Diante de tantos fatos marcantes e traumáticos, ocorridos num curto espaço de tempo, talvez estes dois homens estivessem caminhando até Emaús, para proteger suas vidas, como fizeram tantas outras pessoas. Quem sabe caminharam para Emaús, pois queriam esfriar a cabeça, afinal de contas seu mestre e amigo, havia morrido há 3 dias. Talvez estivessem caminhando a outra cidade para refletirem sobre tudo que estava acontecendo e o que seria da vida deles, agora que seu mestre não estaria mais com eles, ensinando, encorajando, corrigindo, cuidando, amando, orando, discipulando e tantas coisas.

Além dos eventos que estes homens vivenciaram, agora estão caminhando e em suas mentes paira o pensamento de um possível roubo do corpo do seu mestre. Isso porque naquele mesmo dia, algumas mulheres afirmaram que foram ao tumulo e não encontram o corpo de Jesus e mesmo com o relato das mulheres de que Jesus havia ressuscitado, eles optaram por não acreditar no relato delas. Muitas coisas a serem consideradas nesse momento delicado, na vida destas pessoas. Sob esta infinidade de eventos é que estes homens caminham e nesta caminhada encontram e começam a dialogar com um estranho. Não sabemos se por estarem com a mente esgotada, ou por estarem fisicamente cansados por conta da caminhada, ou por estarem desapontados e frustrados com o seu mestre, mas inicialmente, estes dois discípulos não reconhecem quem está falando com eles e a partir desse não reconhecimento, gostaria de convidar você a refletirmos sobre como estamos caminhando essa caminhada (perdão pela redundância).

Cristo Jesus tem ministrado aos nossos corações em diversos momentos, em diversos locais e por diversas pessoas, mas será que temos percebido a voz que fala conosco? Percebendo, será que temos escutado está voz, com a devida diligência? Escutando, será que temos dado a devida importância ao que Ele tem anunciado? Na história que lemos, Lucas não descreve a quanto tempo estes homens estavam sendo discipulados, mas percebemos que havia certa intimidade com os demais discípulos, logo, podemos imaginar (não concluir), que eles caminhavam há bastante tempo com Cristo e os demais discípulos. Com isso podemos imaginar, que estes homens ouviram diversas mensagens de Jesus, ouviram sobre sua prisão, sobre sua morte e sobre sua ressurreição. Conheciam a voz do mestre, sua maneira de falar, seus gestos, suas expressões, seu rosto, enfim conheciam o Cristo. Mas a caminhada e a conversa que eles têm com este homem estranho, não deixa claro que se trata de alguém conhecido. Mais que isso, a caminhada e a conversa com este estranho, revela a falta de entendimento acerca dos ensinamentos de Jesus.

 

 

Pensamos caminhar com Cristo, mas nesta caminhada temos reconhecido quem Ele é? Ou será que se trata de um estranho, que nos acompanha e fala conosco, mas não compreendemos o que ele diz na sua fala? No verso 21 eles dizem que “tinham esperança de que Ele fosse o libertador de Israel”. Mas será que Jesus não havia trazido liberdade? Será que Jesus não havia libertado diversas pessoas, em diversos momentos e situações? Em outro momento o próprio Jesus percebe a falta de compreensão daqueles homens. No verso 25, o estranho diz para eles “como custam a entender o que os profetas registram nas escrituras”. Na tradução A Mensagem este mesmo verso diz “Como demoram para crer! Por que não acreditam em tudo que os profetas disseram?” A tradução Peshitta, traz o termo “pesados de coração”, que no Aramaico quer dizer mentes lentas. Com isso Cristo está chamando a atenção deles, uma vez que todos aqueles eventos que aconteceram, foram evidenciados e explicados pelos profetas e pelo próprio Cristo. Então o estranho pacientemente, torna a explicar as escrituras aqueles homens. Cristo Jesus tem ministrado aos nossos corações em diversos momentos, em diversos locais e por diversas pessoas, mas será que temos percebido a voz que fala conosco? Percebendo, será que temos escutado está voz, com a devida diligência? Escutando, será que temos dado a devida importância ao que Ele tem anunciado?

Estamos caminhando e nesta caminhada sabemos quem está conosco? Ou será que vivemos num círculo vicioso em que fazemos e vivemos as coisas de Cristo de forma automatizada? O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer dizia que “diante de Deus e com Deus, estamos vivendo sem Deus”. Não sentimos mais a mesma intensidade e prazer em nossas orações, porque não sabemos a quem de fato estamos orando e porque estamos orando. Nossos momentos de comunhão não dão satisfação, porque estamos sempre prontos a falar, mas nem sempre estamos prontos a ouvir, a doar, a ajudar. Nossos cultos tornaram-se eventos agendados, em que cronometramos minuto a minuto, ansiosos pela hora de sair correndo, sem tempo para dialogar com os outros. Vivi isto em dado momento e percebi que minhas ações estavam automatizadas, não havia sinceridade, queria fazer o que estava fazendo, mas não estava sendo sincero, fazia porque precisava fazer e não porque sentia alegria naquilo que estava fazendo, não havia prazer. Havia perdido ou esquecido o conselho que Paulo dá a igreja dos Colossenses, para que “tudo que fizermos, devemos fazer de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens” (Colossenses 3.23). Quando numa leitura de uma mensagem de um pastor que tenho grande estima, me deparo com a seguinte pergunta “e se Jesus não tivesse nascido?” Percebi que a caminhada me fez tratar Cristo como um estranho ou apenas mais um na caminhada. Saber que Ele caminhará comigo em todo tempo, talvez gere comodismo e nesse comodismo não perceba quem Ele é, sua importância pelo que Ele fez e o que Ele tem feito. Estamos caminhando e nesta caminhada sabemos quem está conosco?

Como temos vivido esta caminhada? Refletir sobre nossa caminhada mostrara que temos caminhado com um estranho?  Em muitas ocasiões sabemos o nome deste estranho, mas não sabemos quem Ele é de fato. João escreve que Jesus disse que “minhas ovelhas conhecem a minha voz, e eu conheço-as, e elas seguem-me” (João 10.27 – NVT). Você conhece a voz deste que vos fala? Talvez seu coração queime com a voz d’Ele e como você tem respondido a isso? Henri Nouwen, no seu livro Diário, faz uma belíssima e reveladora declaração:

[...] o que posso dizer sobre minha vida de orações? Gosto de orar? É meu desejo orar? Reservo tempo para orar? Francamente, a resposta é “não” para as três questões. Depois de 63 anos de vida e 38 de sacerdócio, minha oração parece tão morta quanto uma pedra. Lembro-me com ternura da adolescência, quando mal conseguia ficar longe da igreja. Costumava passar horas ajoelhado com profundo senso da presença de Jesus. Não conseguia acreditar que não eram todos que queriam orar. Orar era algo tão íntimo e gratificante. [...] Eu deveria estar cheio de fogo espiritual, consumido pela oração. [...]. A verdade é que não sinto nada de singular quando oro, se é que sinto alguma coisa. (Nouwen, Henri – Diário)

Não é fácil perceber e aceitar que nossa caminhada se tornou algo robotizado e sistematizado. Mas torna-se necessário, compreender o momento e revisitar as escrituras, para buscar em Deus, um ressignificado para esta caminhada. Assim como Nouwen, pensamos que o tempo que caminhamos farão de nós pessoas mais fortes, fervorosas, santificadas, um exemplo de cristão, mas quando nos deparamos com a realidade, percebemos que estamos mais frios que as geleiras da Antártida. Jó passa por esta caminhada, se apegando em alguém que ele conhecia de ouvir, um estranho para ele, mas que para outros, era alguém poderoso. Foi uma caminhada difícil e árdua, mas buscando em Deus, Jó ressignificou seu conhecimento daquele alguém e agora não era de ouvir, mas os próprios olhos de Jó viram quem Ele era.

Talvez dando mais uma oportunidade, o estranho resolve jantar com aqueles discípulos. A ideia inicial não era esta, mas dada a insistência, o estranho decide assentar a mesa, com eles. Num ato muito representativo para o estranho e para aqueles discípulos, ele abençoa e parte o pão. Naquele instante os homens percebem que o estranho, não era tão estranho assim e neste momento reconhecem quem caminhou, falou, ensinou e ceou com eles. A palavra está sendo anunciada neste exato momento e nos orienta a compreendermos quem caminha, fala, ensina e ceia conosco. Talvez estejamos caminhando, mas não estamos sentindo o que sentíamos no início e agora Cristo nos convida a ressignificarmos nossa relação com Ele. Talvez eventos que tenhamos vivido tenham nos deixado como aqueles discípulos, mente esgotada, com insegurança, cansaço físico, frustrado pelas expectavas que não se tornaram realidade, enfim, a caminhada não tem sido fácil, mas este é o momento de refletirmos. Caminhar com Cristo, não quer dizer ausência de crises, ao contrário, lutas virão e muitas que não estamos esperando, mas como Paulo declara “De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos” (2 Coríntios 4.8-9).

Os mais próximos a mim, sabem do meu gosto por filmes, principalmente filmes de animação. Recentemente, assistindo pela milésima vez o filme Soul, me chamou atenção um diálogo em que a personagem Dorothea Williams conta a seguinte história ao Joe Gardner:

“Ao encontrar o ancião ele disse que estava procurando uma coisa chamada oceano. Ao ouvir isso o ancião pensou e respondeu ao peixinho dizendo que ele já estava no oceano. O peixe observou o que estava a sua volta e disse, isso aqui é apenas água.” (Soul, Disney Pixar)

Ele está aqui ao nosso lado, caminhando conosco, buscando se relacionar com sua criação e desejando que sua criação se relacione com Ele. Estamos buscando em tantos lugares, de tantas formas, que nos esquecemos da simplicidade deste relacionamento. Somos convidados neste dia a fazermos como Jó fez, que mesmo diante de eventos inesperados, ressignificou seu conhecimento daquele em quem cria e agora não era um conhecimento apenas de ouvir, mas os próprios olhos de Jó viram quem Ele era. Um peixe buscou um ancião, para obter direcionamento sobre um assunto. 



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