A vida é rara

 


Nossa reflexão tem como ponto de partida o texto de Mateus 25.14-30.

Vivemos um momento, em que precisamos potencializar nossas ações cotidianas, para otimizarmos nosso tempo. Isso quer dizer que precisamos fazer muito com os poucos recursos que estão disponíveis, quando estão. Criamos uma espécie de círculo vicioso, onde temos uma sucessão de acontecimentos que se repetem indefinidamente, resultando em situações que aparentemente não tem saída, gerando consequências normalmente negativas para quem está dentro do processo que se repete. Vivemos numa espécie de roda que requer mais e mais e com isso perdemos a sensibilidade de quem somos e de quem são os outros. Perdemos a sensibilidade de entendermos nossas limitações, fraquezas e particularidades. Além disso, perdemos a sensibilidade de entender e conhecer o outro e a ausência deste conhecimento, impossibilita aprofundarmos nossas relações, gerando relações e pessoas vazias, rasas e insensíveis.

Cada ser é único e como tal, possui características únicas. Muitas vezes somos incongruentes, cheios de peculiaridades, dúvidas, falhas, imperfeições, mas também sabemos fazer o bem, sermos solidários, parceiros, esforçados e com tudo isso e por isso, somos escolhidos, para que com nossas características, possamos realizar a missão proposta pelo Pai, aqui e agora. Trata-se do hoje, do presente, do instante atual. O futuro será determinado, pelo presente e não o contrário. Estamos preocupados com o futuro, ansiosos pelo retorno de Jesus, focando somente nesse momento e em alguns momentos, isto pode nos fazer esquecer de realizar a obra agora. Como diria Lenine, “a vida é tão rara” e num outro trecho, ele levanta outros questionamentos:

“Será que é tempo

Que lhe falta pra perceber?

Será que temos esse tempo

Pra perder?

E quem quer saber?

A vida é tão rara. (Lenine, Paciência)”

Quando perceberemos a necessidade de realizar aquilo que realmente importa? Quanto tempo mais, menosprezaremos nossas características, as boas e as más, em busca de uma perfeição, que não alcançaremos? Quanto tempo mais, nos compararemos aos outros, imaginando que temos que ser como eles, ter o que eles têm, sem ao menos nos conhecermos ou conhecermos o outro? Deus quer que todos vivam e desfrutem o melhor dessa terra, mas o melhor que eu vou desfrutar, não necessariamente será o melhor que o outro desfrutará. Foi dada a cada um de nós condições diferentes e isso não está condicionado, porque você é o mais querido, o mais especial ou o preferido, mas nos foi confiado dessa forma, porque é o que suportamos. Dave Kraft, nos dá uma precisa lição através de uma metáfora. Para representar essa condição, ele diz o seguinte:

“Não temos todos os mesmos dons, personalidades ou capacidade. Acho que as pessoas são como elásticos que têm tamanhos e formas variadas. Uns são pequenos, outros são grandes. Um elástico pequeno só pode ser esticado até certo ponto. Ele tem limites. Um elástico maior pode obviamente ser mais esticado. Independentemente de o elástico ser grande ou pequeno, ele só pode ser esticado até certo ponto, quanto então precisa voltar a um ponto de repouso. Se for esticado demais e ficar assim por muito tempo, arrebenta (Líderes que permanecem – Dave Kraft).”

Precisamos repensar o trajeto que estamos seguindo, precisamos repensar como estamos caminhando por esse trajeto, precisamos ressignificar essa caminha. Foi confiado a cada um de nós características preciosas e únicas. Não importa se um recebeu mais que o outro, importa o que estamos fazendo com o que nos foi entregue. Se recebemos cinco, dois ou um, pouco importa. Importa o que faremos com essa responsabilidade e compete a nós empenho em utilizar estes talentos para realizarmos a missão deixada por Jesus. 

Cuidar das viúvas, dos pobres, dos necessitados, dos pequeninos, daqueles que carecem de auxílio material, espiritual e social. Toda a obra de Jesus converge para essa finalidade. Entregar nossos talentos a esta finalidade, gerará frutos, pois trata-se de um investimento alinhado aos ensinamentos propostos por Jesus. Como cantaria Renato Russo, “Todos os dias quando acordo Não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo (Renato Russo – Tempo Perdido)”. Não percamos tempo, lamentando pelo que passou, pelo que deixamos de fazer, chegou o tempo de nos levantarmos e agirmos como igreja. Não despreze aquilo que foi entregue a você. O que temos e o que somos, só será desprezível, se nossas ações forem de desprezo. A sociedade espera que sejamos e façamos a diferença, não que passemos uma imagem de seres perfeitos, mas de pessoas engajadas com o objetivo de amar o próximo. Que possamos refletir sobre o que foi confiado a nós e assim possamos trabalhar, servindo a nossa comunidade eclesiástica e a comunidade que estamos inseridos.


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