Personagens Invisiveis

 


Nossa reflexão tem como ponto de partida o texto de 2 Pedro 1.3-10. 


Somos convidados nesse dia a refletir sobre nossa caminhada cristã, individual e coletivamente. Há aqui um convite a considerarmos possíveis falhas em nossas ações, que tem gerado pouco ou nenhum impacto em nossas relações cotidianas. Pedro, considerando a mensagem que recebemos de Deus, através de Jesus, nos instiga a pensarmos sobre a importância da nossa fé e de nossas práticas, sobre a vida que vivemos aqui e agora. Aquilo que acreditamos ser obvio, não tem sido tão obvio quanto imaginamos. 


Recentemente vivi duas experiencias, que se completaram e que mexeram muito comigo. A primeira refere-se a leitura de um artigo, do site Movimento de Lausanne, que falava sobre 5 princípios para um ministério urbano frutífero. Neste texto me chamou atenção o primeiro princípio, que tratava do “desconhecimento que a igreja tem de sua própria cidade”, ou da localidade que ela está inserida. Desconhecimento acerca da “demografia, situação socioeconômica, público frequentador da igreja e outros aspectos importantes”, torna-se importante, porque “para amar nossa cidade, [ou a localidade que estamos inseridos], precisamos conhecê-la”. O texto ficou em minha mente e foi complementado por uma experiencia prática. Alguns dias atras, estava passando numa rua na Vila Guacuri e passei por duas crianças, que acredito ter no máximo 8 anos de idade. Elas estavam com um carrinho de mão, coletando material reciclável, acredito que para vender num ferro velho e levantar algum recurso. Isso me incomodou demais, porque a realidade que está a nossa volta é óbvia, mas desconhecemos o obvio. Imaginamos conhecer a realidade que está a nossa volta, mas desconhecemos quem são os personagens dessa realidade, suas dores, dilemas, necessidades e tantas outras coisas. Diante disso comecei a questionar sobre a relevância das minhas ações, enquanto cristão na comunidade que estou inserido. Comecei a questionar sobre a importância que tenho dado a realização da obra proposta por Cristo, no conhecimento, relacionamento e cuidado, daqueles e daquelas que estão ao meu redor. Comecei a questionar como tenho respondido as demandas das pessoas com quem eu me relaciono, direta ou indiretamente (como aquelas crianças) e da comunidade que faço parte. 


Nos versículos lidos, Pedro nos mostra que, a partir das promessas que recebemos, precisamos nos esforçar ao máximo para dar uma resposta significativa e relevante, a realização da obra que Jesus nos incumbiu de realizar. Nossa fé e nossas ações, precisam gerar frutos significativos na vida dos outros, pois somos participantes da natureza divina e com isso Pedro quer dizer que as características da natureza de Deus se tornam minhas, através de Sua obra criadora. Um ser justo, misericordioso, perdoador, sofredor, paciente, fiel, pacífico, alegre e acima de tudo que ama, são algumas das muitas características da natureza divina e que agora pertencem a nós também. Nenhum de nós tem essas características como parte de nossa natureza, sem que elas tenham sido manchadas pelo pecado em algum nível. Boas características humanas são sempre limitadas, imperfeitas e, muitas vezes, egoístas” (Cristianismo Ativo). Enquanto seres humanos temos uma enorme responsabilidade em cuidarmos uns dos outros! Enquanto seres humanos e cristãos, esta responsabilidade adquiri uma importância ainda maior. As diversas pessoas, que nos relacionamos direta ou indiretamente, carecem da nossa oração, da nossa atenção, da nossaão e por que não, nossa contribuição 


Sobre isto Pedro, no verso 5, utiliza o verbo, epichorego, para o “acrescentar”. Este verbo, traz uma história em que na dramaturgia grega, as peças dependiam do esforço do poeta (que escrevia o roteiro, do Estado (que providenciava o teatro) e de patrocinador, chamado de choregos, que bancavam as despesas. Na visão de Pedro, Deus escreveu o roteiro da vida, o mundo é o teatro onde essa realidade é representada e os cristãos devem fazer sua parte, dedicando-se ao máximo para tornar o roteiro uma peça digna de aplausos, ou seja, nós somos responsáveis para que ela seja realizada de maneira digna e justa. Temos esta grande responsabilidade, porque recebemos grandes e preciosas promessas e acredito que se Deus permitiu que participássemos de sua natureza, de alguma maneira e em algum nível, conseguiremos realizar esta obra. Talvez por isso Pedro evidencia a necessidade de crescermos em alguns aspectos e nos versos 5, 6 e 7 somos expostos a estas práticas, que tem a finalidade de aprofundar nosso conhecimento sobre Cristo. Práticas que devem ser buscadas constantemente, para que em todo o tempo, nosso conhecimento, sobre Cristo seja mais profundo e maior, para que com isso possamos trabalhar mais arduamente em nosso chamado.  


As qualidades encontradas nos versos 5-7 descrevem um cristão sadio e frutífero, desta forma o Espírito que está sobre nós, permite “pregar a mensagem das boas novas aos pobres, sermos enviados para anunciar perdão aos prisioneiros e a recuperação da vista aos cegos, para liberar os oprimidos e indefesos e para anunciar que este é o ano em que Deus irá agir” (Lucas 4.19-20 – A Mensagem). As qualidades encontradas nos versos 5-7 descrevem um cristão sadio e frutífero que alimenta o que está com fome, que da água ao que está com sede, que abriga ao que não tem um teto ou um lugar para dormir, que agasalha ao que está com frio, que visita ao que está preso ou doente. Antes de um cristão evangelizar, é preciso amar de verdade. Um amor cuja origem esta não em quem é amado, mas naquele que ama e em 1° João 4.20-21, a tradução A Mensagem é bem direta a respeito disso: 


“Se alguém se vangloria, dizendo: eu amo a Deus, mas odeia e despreza seu irmão, é mentiroso. Se não ama a pessoa que vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? O mandamento que temos da parte de Cristo é sem rodeios: amar a Deus se vê na prática de amar o próximo. Vocês precisam amar os dois.” 


A partir de um relacionamento genuíno, poderá haver espaços para conversas honestas sobre Jesus Cristo e o Espírito Santo de Deus abrirá o entendimento das pessoas. Assim como foi conosco, em que alguém se importou conosco genuinamente e a partir de conversas honestas, fomos apresentados a Cristo e ao nos achegarmos a Ele, fomos purificados de nossos antigos pecados.   


Voltando a experiencia que compartilhei, se faz necessário sermos uma igreja (individual e coletivamente) e sermos humanos relevantes e atuantes. Conhecer e se fazer conhecido, ouvir e ser ouvido, estar e ser parte de soluções. Aquelas duas crianças despertaram o desejo de conhecer mais onde estou e como posso ser e fazer a diferença. Não se trata de mudar o mundo, embora seja um excelente desejo, mas se trata de levar esperança, que somente Cristo pode dar, através da minha e da sua vida. Sob o risco de fugir do tema, na Declaração Universal dos Direitos da Criança, temos diversos direitos, mas um que me chama a atenção é o de que “a criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se, visando os propósitos mesmos da sua educação; a sociedade e as autoridades públicas empenhar-se-ão em promover o gozo deste direito”. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, temos outros tantos direitos, mas destaco que “Todo ser humano tem direito à vida”. Citei estes itens, para reforçar que temos responsabilidade para cuidar das criaturas e da criação de Deus. O Pr. Carlos Bezerra Jr. tem uma frase com grande profundidade que diz “Somos todos criados a imagem do Criador, logo a vida humana é sagrada”.  Que possamos salgar, que possamos iluminar, que possamos semear, que possamos fazer a diferença na vida do próximo. Que amar, não seja apenas um discurso, mas seja uma prática constante. Quanto mais crescermos nestas coisas, mais produtivos e uteis seremos e isso testemunhara sobre nosso chamado nessa terra. Na pretensão de sermos imitadores de Cristo, encerro esta reflexão com as palavras de Cristo, descrita em João 10.10, que diz na tradução A Mensagem: 


“Eu vim para que eles tenham uma vida verdadeira e eterna, uma vida melhor e mais rica que qualquer outra em que tenham sonhado. 


Conceder essa vida envolve, salvação, provisão, cura e muito mais. Agora compete a nós irmos e levar, aqueles que precisam, a vida que agora vivemos em Cristo. 

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