Certezas em meio as incertezas





Nossa reflexão tem como ponto de partida o texto de Jeremias 29.1-13. 


Dados da empresa Domo, publicados em 2020, mostraram que a cada minuto 347 mil novos Stories eram postados no Instagram, cerca de 147 mil fotos eram publicadas no Facebook e 41 milhões de mensagens eram trocadas no WhatsApp. Em tempos em que a informação (boa e ruim) está disponível e com relativa facilidade para acessá-las, caminhamos com muitas incertezas, dúvidas, dilemas, crises (pessoais, emocionais, de identidade, financeira, dentre outras), confrontos (internos e externos) e tantos problemas que têm gerado em nós sentimentos desfavoráveis em relação ao futuro. Acrescentamos a isso a descrença, que continuamente vem aumentando, nas instituições públicas e privadas, nos governantes, no ser humano e em Deus. Talvez nessa descrença, percebemos que cada ser humano compartilha e carrega consigo, o que acredita ser “a sua verdade” e nesta verdade há pouco ou nenhum espaço para o diálogo, e talvez por conta disso, gerando possíveis afastamentos relacionais entre as pessoas e afastamento da nossa relação com Deus.  


Conduzimos nossa vida, como seres autossuficientes, nos esquecendo que somos, essencialmente, interdependentes, interligados e inter-relacionais. Em nossa essência, existe a necessidade de estarmos mutuamente auxiliando uns aos outros. Em nossa essência, estamos de alguma maneira ligados uns aos outros. Em nossa essência, precisamos nos relacionar a todo instante, uns com os outros. Talvez por conta da percepção de autossuficiência, temos nos afastado de Deus, considerando-o irrelevante, para nossa existência e caminhada. Com isso, buscamos preencher nossa vida com outras coisas. Para muitos trata-se das bebidas, para outros são as drogas, outros estão numa busca desenfreada por dinheiro, reconhecimento midiático ou profissional, compulsão por adquirir coisas das quais não necessitam, mas querem para ostentar, enfim, extraímos Deus de nossas vidas, buscamos preencher esse espaço com outras coisas e permanecemos com o vazio, sem saber como, quando e onde preenchê-lo. Sobre este vazio, Dostoiévski, escritor e filosofo russo, disse que “existe no homem um vazio do tamanho de Deus”. Por maior e melhor (em nossa percepção), que seja nossa busca por preencher o vazio que há em nossa existência, não são as coisas que preencherão essa lacuna, apenas conseguiremos isso, quando tivermos um relacionamento verdadeiro com Deus.

 

Em meio a um dos períodos mais críticos da história do Oriente Médio Antigo, Jeremias é levantado como profeta para entregar ao povo a mensagem enviada por Deus. Havia muita idolatria, infidelidade e desobediência aos mandamentos e a aliança feita com Deus e isto gerou frieza e afastamento do relacionamento do povo para com Deus. Os muitos eventos descritos no livro de Jeremias, podem nos levar a pensar no quanto aquelas pessoas, estavam refletindo sobre o que aconteceria com elas no futuro. Tantas incertezas, tantas dúvidas, tantas questões, tanta insegurança, enfim, agora em um país estranho, com costumes diferentes, cultura diferente, política diferente, o que acontecerá no amanhã? Diante desse momento, Jeremias envia uma carta a todas as pessoas que ainda estavam exilados e nesta carta está contida realidades que aquelas pessoas precisavam ler e ouvir (ex.: de que o retorno para sua terra poderia demorar muito tempo). Além disso havia instruções sobre a maneira como aquelas pessoas deveriam viver aquele tempo, naquele local e havia também uma mensagem de esperança pelo que Deus ainda faria na vida daquelas pessoas.  


No livro O Problema do Sofrimento, C. S. Lewis, escreve o seguinte:  


“Pensamos em Deus como um piloto pensa em seu paraquedas: ele está para emergências, mas o piloto espera que nunca tenha de usá-lo. Ora, Deus, que nos criou, sabe o que somos e que nossa felicidade repousa nele, contudo não buscaremos nele enquanto Ele nos deixar qualquer outro recurso em que ela possa ser procurada de maneira plausível. Enquanto o que chamamos de “nossa vida” continuar satisfatória, não o entregaremos a Ele. (C. S. Lewis, O problema do sofrimento, pg. 109) 


Percebemos reações, que são geradas por nossas ações. Nos afastamos de Deus, por pensarmos que somos autossuficientes e enquanto as coisas permanecerem nesse sentido, dificilmente nos relacionaremos com Ele, de maneira fidedigna e satisfatória. O propósito de Deus, não é nos ferir ou nos fazer sofrer, diante dessas adversidades. Mas momentos assim, tem o propósito de nos transformar em seres humanos conforme a imagem de Jesus Cristo. Por este motivo, Jeremias instrui ao povo, que vivam suas vidas, mesmo que este viver, não seja tão confortável. Trata-se de um tempo de crescimento e amadurecimento. Por isso construam suas casas, se estabeleçam, plantem e comam o que plantar. Casem-se e tenham filhos, trabalhem para o crescimento da nação. Orem pela prosperidade da nação, porque ela estando bem, o povo também estaria. Façam a diferença no meio deste povo. Testifiquem através da vida de vocês, o Deus que vocês servem e acreditam. Entreguem suas vidas de maneira satisfatória a Deus, busquem a Ele e assim o encontrarão. Busquem-no de coração e em primeiro lugar! Com isso, a ação de Deus será evidente na vida de todos e todas. Novamente citando Lewis, ele diz: 


“Vi grande beleza de espírito em grandes sofredores. Vi homens, em sua maior parte, melhorarem – e não piorarem – com o passar dos anos e vi a doença terminal produzir tesouros de força moral e humildade nos pacientes menos promissores.” (C. S. Lewis, O problema do sofrimento, pg. 122) 


Como mencionei no início, temos nos afastado de Deus e consequentemente de uma relação verdadeira e somos convidados a nos aproximar dele novamente e viver os planos que Ele tem para nós. Planos de cuidar, amar, prosperar, não abandonar, nos fazer amadurecer. Talvez achemos que somos autossuficientes, quando na verdade precisamos preencher algo, que somente Ele poderá ocupar. Talvez estejamos buscando palavras que afagam nosso ego, que agradam e satisfazem nossa conduta egoísta, narcisista e hedonista. Palavras que dizem ser provenientes de Deus, mas são mentirosas e quando não realizadas, nos frustramos e culpamos Deus. Compreender essa necessidade e agir para transformá-la não é uma tarefa simples e fácil. Mas talvez este momento que estamos vivendo é um convite para nos arrependermos, não como algo pesado por algum erro que tenhamos cometido, mas no sentido de Metanoia, ou seja, pensar diferente, adquirir uma nova compreensão da realidade, perceber que estamos nele e Ele está em nós.  


Nessa infinidade de incertezas, precisamos crer na única certeza que temos, 𝗰𝗿𝗲𝗿 𝗲𝗺 𝗗𝗲𝘂𝘀! Crer nesta certeza é diferente de acreditar. Aprendi essa diferença no livro Talmidim, do Pr. Ed Rene Kivitz, que compartilho:  


crer é confiar, é depender, é render-se em entrega aos cuidados de Cristo [...] Acreditar é saber que algo existe. Mas quando a Bíblia Sagrada diz que devemos crer no Filho de Deus, ela está dizendo que devemos nos relacionar, interagir com Ele, para podermos experimentar o amor de Deus e a vida eterna.” (Talmidim 023) 


Como no texto de Jeremias, não estamos e não estaremos isentos de dificuldades, crises (de todas as naturezas), problemas e conflitos, mas estar e crer n’Ele e somente n’Ele, nos trará paz, para enfrentarmos esse percurso que chamamos de vida! Talvez as incertezas sejam ainda maiores, mesmo que tenhamos perspectivas de dias melhores! Diante disso, “mantenhamos o olhar firme em Jesus, o líder e aperfeiçoador da nossa fé" (Hebreus 12.2 – NVT). Encerro esta reflexão com esta citação de Henry Nouwen 


“Tenha certeza de que você ama a vida que está vivendo agora, seus estudos, suas orações, suas amizades [e tantas outras coisas]. Então poderá confiar que Deus lhe mostrará que direção tomar, quando chegar a hora. Mas não tente saber agora o que você precisa saber daqui a alguns anos.” (Henri J. M. Nouwen, Diário, pg. 61) 

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