Todo Ouvidos



Para nossa reflexão de hoje, leremos o texto de Tiago 1.19-27

Recentemente estava assistindo uma transmissão de um pastor, que também é professor na instituição que estudo e no decorrer da transmissão, comecei a observar os comentários, que alguns expectadores estavam fazendo e algo, nesses comentários, me incomodou bastante e não se tratava do conteúdo dos comentários, mas a necessidade que temos de falar. Mas não é simplesmente falar, trata-se de uma fala, onde eu estou certo e outro errado. Trata-se de uma fala que não dá margem para o diálogo, não dá margem para que ideias sejam debatidas e/ou discutidas. Nessa fala não há margem para ouvir, há apenas a imposição de uma ideia, que acho ser correta e assim todos devem achar o mesmo. Valorizamos falas que nada dizem ou nada agregam a nossas vidas ou a vida dos outros e esse valor se dá pelo simples fato de queremos falar. Com a exemplificação desse evento, percebi que dentre tantas carências que temos, uma que se destaca significativamente é o escutar. Há significativa diferença entre ouvir e escutar. O primeiro refere-se ao sentido da audição, é aquilo que o ouvido capta. o segundo por sua vez, significa ouvir com atenção, é entender e compreender o ouvimos, é processar a informação internamente e ser afetado.

O silencio precede a palavra e talvez este seja o ponto que tenhamos, equivocadamente, abandonado e que também não tenhamos interesse ou não façamos questão de regatá-lo. Num diálogo, estar em silencio, escutando o outro, é essencial para aprender, amadurecer e ensinar. Quando apenas falamos, ficamos impedidos de escutar e por conta das muitas preocupações, não percebemos a profundidade e o impacto disso em nossa vida. Vamos aos nossos cultos, mas quando ele acaba e retornamos a nossa casa, percebemos um grande vazio. Mas como pode isso? Foram momentos emocionantes, em que cantamos diversas músicas, a todo instante estávamos dando brados de glorias e aleluias. Fato é que ao longo do tempo construímos a ideia de que Deus se manifesta apenas e somente no barulho, na euforia e com isso não há uma escuta profunda. Elias percebeu a voz de Deus, a partir do silencio. 1 Reis 19, nos mostra que o Senhor estava na brisa mansa e delicada. Elias escuta Deus a partir do silencio de uma brisa mansa e suave.

Como mencionado anteriormente, a essência do silencio é ouvir e ouvir de forma presente, atenta e empática. Mas precisamos ser sinceros, não sabemos ou temos muita dificuldade em ouvir a Deus, nós mesmos ou nosso próximo. Não estamos prontos a ouvir, como sugere Tiago e com isso todos queremos falar e quando todos falam, ninguém ouve e quando ninguém ouve, as consequências são fatais.  Num trecho de O Caminho do Coração, o autor diz:

                “Hoje, o que define a espiritualidade de um cristão moderno é sua agenda repleta de compromissos que venham a ocupá-lo o dia todo com reuniões, trabalhos evangelísticos, pregações, visitas, etc. [...] Nossos cultos e nossa vida religiosa precisam ser preenchidos de forma a não deixar espaços vazios, pois para o homem moderno o silêncio atua como a presença de uma pessoa inoportuna que insiste em denunciar nossos fracassos.” (O Caminho do Coração – Ricardo Barbosa de Sousa)

Talvez esse seja o motivo de estarmos prontos a falar, seja porque o silencio nos confronta, confronta nossas ideias, nos conceitos e pré-conceitos. O silencio nos leva a conhecer quem sou e me conhecer pode revelar coisas, que não quero aceitar. O silencio nos incomoda, e talvez falar seja a ferramenta para evitar situações como estas. Estar em silencio para ouvir, demanda esforço e talvez não estejamos dispostos a investirmos energia nesta ação. Nouwen, no livro Oração, exemplifica que:

“A pessoa que é lançada no silencio é como o viciado em droga, que deve passar pelo doloroso processo de abstinência.” (Oração – Henry Nouwen)

Recentemente, numa experiência pessoal, percebi isso na prática. Uma pessoa muito próxima, compartilhou algo e este algo não me agradou e imbuído deste incomodo, que beirava a raiva, comentei algo, mas logo percebi que a relação com a pessoa e o respeito por ela, estava acima da minha fala, que naquele momento não agregaria nada, ao contrário, poderia gerar rupturas, na relação que tenho com esta pessoa. O exercício reflexivo foi, minha fala é mais importante que minha relação com esta pessoa? Minha fala é mais relevante que a estima, o respeito e o zelo que tenho por esta pessoa? Minha fala, naquele momento, produziria alguma mudança ou seria apenas uma imposição da minha opinião? O autor de Eclesiastes diz que “há tempo de calar, e tempo de falar”. Ouvir e ser ouvido é fundamental, para termos relações saudáveis, para evidenciarmos uma religião com valor e aprofundada nos preceitos bíblicos, da prática do amor e da justiça. O Livro de Marcos, no capitulo 7, evidencia uma história, onde Jesus explica que o que contamina a pessoa não é o que entra, mas sim aquilo que sai, aquilo vem de dentro. Nos versos 21 e 22, Cristo explica que “de dentro, do coração da pessoa, vêm maus pensamentos, imoralidade sexual, roubo, homicídio, adultérios cobiça, perversidade, engano, paixões carnais, inveja, calunias, orgulho e insensatez.”

Concluo esta reflexão com um trecho do livro, Formação Espiritual:

“Na fala, o silencio é a pausa entre uma fala e outra, sem a qual não haveria comunicação possível. Na música, é a pausa entre uma nota e outra, sem a qual não haveria melodia, mas apenas um som. Na escrita, temos a pontuação: virgula, ponto-e-vírgula, ponto final, de interrogação e exclamação, reticências, aspas, notas de rodapé. A beleza e a compreensão das palavras estão intimamente relacionadas com estas pequenas pausas.”

Percebemos a importância do silencio, para completude e aperfeiçoamento do viver. O silencio precede a palavra. Que possamos buscar estar prontos a ouvir e fazermos sermos ouvidos, apesar de uma tarefa árdua e que demanda considerável esforço, podemos ter a convicção que os frutos produzidos, são significativos e relevantes para nossa relação com Deus, conosco e com nosso próximo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ninhos vazios