Coragem para viver
Nossa reflexão tem como ponto de partida o texto de 2 Reis 5.2-3.
Fomos instruídos por Cristo a “abrirmos os olhos e vermos o que
esta diante de nós, pois os campos estão maduros para a colheita” (João 4.35 –
A Mensagem). A vida está acontecendo e será que estamos com os olhos abertos
observando com cautela e atenção as oportunidades que somos expostos? Será que
estamos, sensíveis para compreendermos o que está acontecendo ao nosso redor e
agirmos diante das necessidades que os momentos e as pessoas têm? Como temos
respondido as oportunidades que surgem em nosso cotidiano, diz muito sobre
nosso relacionamento com aquilo que cremos. A maneira como respondemos as demandas
que nos são postas, evidencia o quão maduros estamos, mesmo nos momentos de
grandes turbulências. A maneira como nos posicionamos diante deste campo,
chamado vida, evidencia ou não que “de fato estamos entre aqueles que foram
chamados e escolhidos” (2 Pedro 1.10). Somos chamados a observamos o que está
acontecendo a nossa volta e tentarmos, de alguma maneira, responder a estas
demandas. A vida está acontecendo e no desenvolvimento deste acontecer, vidas
carecem que tenhamos olhos, ouvidos, mentes e corações, dispostos a se
aproximar, ouvir, entender e agir.
No desenvolvimento da nossa caminhada, percebemos o conflito que
existe entre aquilo que queremos e não queremos fazer. Conflito entre quem
queremos ou não atender e ajudar. Direta ou indiretamente, perceptível ou
imperceptivelmente, filtramos aquilo que queremos e em muitas ocasiões
esquecemos ou não queremos aceitar a vontade do Pai. Talvez por discordância ou
por não compreender a real vontade de Deus. Este conflito não é uma
particularidade da nossa caminhada. Em diversos momentos observamos a
resistência que homens e mulheres tiveram na realização da vontade do Pai.
Jonas ficou resistente a missão designada a ele, Pedro pensou ser inapropriado
misturar-se com algo, que ele e a cultura religiosa da época, definiam como
impuro. Barnabé, por todo histórico existente, não desejava ir até Paulo, como
Cristo propunha a ele. Paulo declarou que “o bem que ele decidia fazer, não
fazia. Mas o mal que não queria, este ele acabava fazendo” (Romanos 7.19-20). Penso
que este conflito está intrínseco em nós e por isso precisamos constantemente buscar
compreender qual a vontade de Deus, para nossa vida, caminhada e existência, e
esta vontade talvez nem sempre convergira para a nossa vontade, talvez os
métodos, os meios e as circunstâncias que Deus queira utilizar, não sejam os
métodos, os meios ou as circunstâncias que desejamos. Por isso, temos a
necessidade de constantemente aprofundar e crescer em nosso conhecimento sobre
Cristo, para compreendermos e sermos uteis na colheita destes grandes campos.
Desenvolvi este pensamento, para refletirmos sobre nosso papel na
missão de proclamar esperança aos que sofrem e carecem dos cuidados e do amor
de Deus. Neste campo, preparado para a colheita, nem sempre teremos as
condições que julgamos serem ideais, para falarmos de esperança, de amor e do
cuidado de Deus. Se não tivermos certeza daquilo que cremos, nossas palavras
serão apenas mais algumas palavras, que alguém está dizendo, como tantas
pessoas já disseram. Se não tivermos certeza daquilo que cremos, ficaremos
calados, apenas observando o sofrimento dos outros. É este ponto, que me chama
atenção, porque as circunstâncias desfavoráveis, não foram impeditivos, para
que aquela jovem garota observasse a oportunidade de proclamar esperança a quem
estava sofrendo. Aquela jovem estava madura, ao ponto de entender que aquele
momento era ideal, para testemunhar aquilo que ela viu, ouviu e viveu, aquele
era o momento ideal para testemunhar suas experiencias com Deus. Tiago fala
sobre este amadurecimento quando diz:
“Amigos,
quando lutas e aflições os atingirem em cheio, saibam que isso é um presente
especial. Vocês verão como a fé será fortalecida e como terão forças para
continuar até o fim. Por isso, não desistam facilmente. Essa perseverança os
ajudará a amadurecer e a desenvolver plenamente o caráter de vocês.” Tiago 1.
2-4 – A Mensagem
Como considerar as dificuldades como um presente especial? Como
aceitar os momentos difíceis e não sentir o impacto, quando eles nos acertarem?
Como não se abater com estes momentos? Mas são momentos como estes que nos
fazem crescer. Não há como afirmarmos que esta garota não tenha se abatido com
toda aquela mudança em sua vida, levada para outro país, longe de sua terra
natal e provavelmente de seus familiares, agora vivendo como uma serva. Não há
como afirmarmos que ela aceitou ou não aquele momento, mas podemos observar uma
pessoa madura o suficiente, para falar de sua confiança no amor de Deus. Talvez
o momento de sua vida, a preparou para fazer o que estava fazendo. Gostaria de
frisar que o propósito de Deus, não é nos ferir ou nos fazer sofrer, diante das
adversidades. Mas momentos assim, podem nos transformar em seres humanos
conforme a imagem e semelhança de Cristo. Talvez essa garota, não soubesse de
sua capacidade para falar do amor de Deus e foram estes momentos que a fizeram compreender
sua força, capacidade e ousadia.
Deus nos conhece e sabe muito sobre nós, mas nem sempre sabemos o
que Ele sabe sobre nós e por isso somos levados a viver experiencias, que nos
farão perceber coisas que somente Deus sabia sobre nós. Agostinho no seu livro
Cidade de Deus, diz que:
“[...]
independentemente do que Deus sabia, Abraão não saberia que sua obediência
podia suportar semelhante ordem enquanto o acontecimento não lhe ensinasse, e
não se pode dizer que ele escolheu a obediência que não sabia que escolheria.”
Em retrospecto sabemos que a confiança de Abraão era grande, mas
somente vivendo sob as mesmas circunstâncias de Abraão, conseguiremos
compreender o que foi aquele momento. Deus sabia que ele era um servo
obediente, mas talvez ele duvidasse de sua capacidade e precisasse viver algo
dessa dimensão, para entender que Deus confiava em sua capacidade. Momentos
como os vividos por esta jovem, da história narrada em 2 Reis 5, vem para
evidenciar coisas que somente Deus sabe e que talvez Ele queira que saibamos
também, para realizarmos sua obra de maneira útil e eficaz. Dadas as
circunstâncias do momento, talvez estejamos duvidando do chamado que temos e
esse tem sido um fator limitador, para realizarmos a missão proposta por Deus.
Com isso, podemos inferir que Deus quer mostrar algo para nós, algo que só Ele
sabe, mas agora nós também precisamos saber. Diante de tantas vozes e tantas
ofertas, Deus quer reforçar nossa identidade e nosso lugar neste mundo, para
vivermos a vontade Dele.
Há uma missão a ser realizada, pessoas neste exato momento
precisam ouvir e ver que ainda há esperança. Precisam ouvir e ver que há alguém
que as ama incondicionalmente e quer mudar a vida delas. Nós somos convidados a
refletir sobre este momento, abrir os olhos e observarmos que os campos estão
maduros, aguardando pessoas dispostas a pagar o preço, para anunciar as
palavras do reino. Somos responsáveis por observar o nosso entorno e ver que
mesmo em meio a tanta corrupção, falta de empatia, falta de diálogo, falta de
cuidado, falta de amor, ainda há pessoas preocupadas em anunciar o evangelho do
amor, um evangelho puro e simples. Talvez este momento que vivemos em nosso
país, assim como em outros, sejam para rompermos uma mentalidade que não tem
cuidado das criações e das criaturas de Deus. Momento de ruptura da nossa mente
para com o que realmente importa.
O fato de ser um imponente general e daquele reino, ser um dos
piores inimigos de Israel, não impediu que a jovem proclamasse esperança sobre
a vida daquele homem. Somos levados a lugares e condições que precisamos falar
do amor de Deus. Luz precisa romper a escuridão e sal precisa dar sabor, assim
precisamos viver este momento intensamente, ainda que dolorido, para sermos
preparados para falar de Deus.
Numa oração que faz para seu amigo Henri Nouwen diz o seguinte:
“[...]
Ajudai-me a ser humilde no seio de um mundo tão repleto de ambição. Ajudai-me a
ser vulnerável num mundo tão preocupado com o poder. Ajudai-me a ser simples
num ambiente tão complicado. Ajudai-me a perdoar numa sociedade em que a
vingança e a retaliação criam tanta dor. Ajudai-me a ser pobre de espírito num
meio que desejam tantas riquezas e aspira a tanto sucesso.” (Diário, Henri
Nouwen, Pág. 211)
Que estejamos sensíveis para entender o momento que vivemos e a
partir desse momento, ainda que delicado, crescermos para realizarmos a vontade
de Deus, num mundo que carece de pessoas que estejam alinhadas com a proposta
do evangelho. Com o que temos de romper? O que temos de ressignificar em nossa
vida? Que ações podemos realizar e que podem impactar o contexto que vivo? O
que Deus quer me ensinar ou como quer me preparar, com este momento que estou
vivendo? Responder a estas e outras questões podem nos levar a vivermos a
missão que Cristo nos incumbiu de realizar e somos nós, em nossa
individualidade, a partir de uma busca verdadeira e profunda com Deus, que
poderemos respondê-las e assim poder, coletivamente, vivenciar o cuidado, a
esperança e o amor de Deus.
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