O ser, que de tanto ser humano, se torna um ser espiritual

Hoje refletiremos a partir do texto de 2 Corintios 12.1-10! 

— Todo mundo sente medo – observou o cavalo. Mas juntos somos corajosos.
— As lagrimas caem por um motivo e são sinal de força, não de fraqueza.
— Qual a coisa mais corajosa que você já disse? – perguntou o menino.
— Socorro – respondeu o cavalo.
— Quando você se sentiu mais forte? – perguntou o menino.
— Quando tive coragem de mostrar minhas fraquezas. – respondeu o cavalo.

Este é um pequeno trecho, de um diálogo extraído do livro O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo, do autor Charlie Mackesy. Me permiti usar esse diálogo, por perceber a profundidade que ele possui, uma vez que vivemos tempos, em que precisamos evidenciar as pessoas o quão fortes, perfeitos, inerrantes e infalíveis nós somos. Claramente não seria necessário, o uso desta situação, uma vez que o apostolo Paulo, evidencia a relevância que, o que entendemos por fraqueza, na verdade não o é. Mas a simplicidade deste trecho, sua profundidade e o fato dele dialogar com os versos que lemos, me permite cita-lo nesta reflexão, uma vez que precisamos perceber o quanto somos imperfeitos, falíveis, fracos, assustados e tantas outras características, mas que em muitas ocasiões não queremos evidenciar, por acharmos que isso, nos colocará num lugar de vergonha e desonra, portanto, para evitarmos tal problema, precisamos evidenciar, a qualquer custo, traços dos padrões de homens e mulheres perfeitos.

Seres humanos, isto é o que somos. Seres que tem suas limitações, mas que, na medida do possível, buscam ultrapassá-la. Seres que possuem medos, mas que tentam vencê-los. Seres que possuem necessidades e dentro das possibilidades buscam supri-las. Seres que possuem fraquezas, mas que buscam fortalecer-se, enfim seres humanos. Somos como a neblina, mencionada por Tiago, que agora existe, mas que logo se esvai. Isso mesmo, somos seres frágeis, que agora existimos, mas em instantes, não sabemos o que acontecerá. Estou reforçando isso, porque em muitos casos acreditamos que aceitar a Cristo, nos dará uma credencial de seres perfeitos, superior aos outros e com poderes ilimitados. Nos esquecemos que antes de sermos seres espirituais, somos humanos e o ser espiritual, não anula o ser humano, ao contrário, o ser espiritual, transforma o ser humano, potencializando suas boas ações no contexto que ele está inserido e a partir destas ações, executadas pelo ser humano, percebemos a mudança de mentalidade proposta pelo próprio Paulo, mentalidade esta que foi transformado pelo ser espiritual. Metanoia, mudança interior, uma mudança mental, uma transformação do caráter.

Ser humano, isso é o que somos. Qual nosso maior medo? Reconhecer que estamos errados? Reconhecer nossas falhas? Reconhecer nossas fraquezas? Paulo inicia o capítulo, descrevendo que poderia orgulhar-se de várias situações que vivera. Experiências únicas e enriquecedoras. Mas ele prefere seguir outra linha de argumento. Paulo prefere ensinar que sua fraqueza, poderia evidenciar o poder de Deus. Nosso choro, nosso pedido de socorro, nossas fraquezas, não precisam serem escondidas. Compreendemos que somos humanos e nessa humanidade nos aproximamos mais de Deus e passamos a compreender o que é depender d’Ele. Em diversas ocasiões o apostolo evidencia essa dependência de Deus. Num momento em que a igreja de Coríntios estava dividida, ele argumenta que não interessa quem planta, ou quem rega, mas sim Deus, pois o crescimento vem d’Ele (1 Coríntios 13.6-7). Mesmo com a representativa e importância, que ele e Apolo tinham, no fim o que mais importava era quem dava o crescimento. Em outra ocasião, agora a igreja de Éfeso, ele argumenta, que a salvação não é uma recompensa, pelas boas obras, que tenham a finalidade de vangloriar-nos, mas sim pela graça, por meio da fé (Efésios 2. 8-10). A graça de Deus é uma dadiva, é um presente para nós, seres humanos. A maioria de nós, não veríamos problema, se Deus nos usasse apenas com nossos pontos fortes, mas são nossas fraquezas que podem nos levar a confiar e depender de Deus.

Moisés, mesmo considerando-se um péssimo orador é levantando como libertador do seu povo e porta voz de Deus. Gideão se considerava o menor importante da família, que pertencia ao menor clã de sua tribo. Pedro que apesar de presunçoso e impulsivo é levantado como um dos principais líderes da igreja primitiva. Paulo, que de perseguidor, passa a ser perseguido. Para citar alguns exemplos de seres humanos, que diante de suas deficiências e limitações, reconhecem sua dependência de Deus e são usados para trazer liberdade aos cativos. Osmar Ludovico da Silva, no livro Formação Espiritual, faz a seguinte declaração:

  “Somos amados por Deus e acolhidos incondicionalmente em nossa inutilidade e pobreza. [...] quando reconhecemos nossas frustrações, deficiências, carências, magoas e fraquezas humanas que abrimos uma pequena fresta por onde penetra a luz da graça e do amor de Deus.” (Formação Espiritual, pág. 84)

Nos sentiremos mais fortes, quando tivermos coragem de evidenciar nossas fraquezas. Porque assim, daremos espaço para que Cristo possa trabalhar em nossa vida e para que sejamos luz para aqueles que querem se achegar a Deus. Jesus sabia muito bem disso, pois novamente citando Osmar Ludovico, Jesus:

“aproxima-se, identifica-se, compreende e acolhe, para então poder falar e ser ouvido” (Formação Espiritual, pág. 82)

As pessoas precisam ver em nós, a vivência constante do evangelho de Jesus Cristo. Precisa enxergar em nós, não pessoas perfeitas, intocáveis e com superpoderes, mas sim pessoas que se aproximam do outro, identificam-se com o outro, compreendem o outro e acolhem o outro, para então discipularmos, falando e sendo ouvido. Talvez a ausência destes itens, sejam o motivo, para que muitos não queiram nem ouvir o que temos a dizer. Não estamos preocupados em se aproximar, se identificar, compreender e acolher, estamos preocupados em impor um discurso, que se não for aceito, seu fim é o inferno. Talvez seja essa desumanização, que tenha afastado as pessoas da nossa vida, porque discursamos acerca de um pseudo perfeccionismo, quando a realidade evidencia outra coisa.

O mundo, entenda mundo, como as pessoas que estão ao nosso redor, precisam ver que Cristo escolhe quem Ele quer, para fazer o que Ele quer, onde Ele quer. O mundo precisa ver, que a graça que nos alcançou, pode alcançar a todos e todas. O mundo precisa ver, que não há perfectibilidade em nossas vidas, ainda que achemos que haja. O mal que não queremos, é o que fazemos e por vezes o bem que queremos, este não conseguimos fazer(Romanos 7.19). Todos sentimos e temos medos, todos choramos, todos temos fraquezas, todos precisam ser acolhidos, todos precisam de ajuda, todos em algum momento, clamam por socorro. Não somos fortes, nem melhores como imaginamos. Será a partir desse reconhecimento, que poderemos externar a grandiosidade do amor de Deus. Um Deus que designou a seres limitados, a missão de falar acerca do seu amor. Ser humano, é isso que somos.  

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